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E-mail enviado ao Primeiro Ministro José Sócrates [07-02-11], por André Moreira


Excelentíssimo Primeiro Ministro,

O meu nome é André Moreira, mas poderia ser João, Maria, Ricardo ou Ana.
Sei que provavelmente nem será o senhor a ler este email, provavelmente até ninguém o lerá, no entanto sempre me ensinaram a não desistir.

Escrevo-lhe porque nesta tarde de dia sete de Fevereiro deveria estar a estudar matemática (tenho teste amanhã), mas não estou. Não estou porque o senhor me obrigou. Obrigou-me a questionar a razão pela qual estudo. Obrigou-me a esta submissão filosófica. Perceberá tudo mais à frente.

Porventura o telefone está a tocar, porventura tem uma grande reunião daqui a cinco minutos, porventura este email apenas conheceu o lixo da sua caixa de entrada…

Sou estudante como já deve ter percebido, tenho 16 anos e frequento o 11º ano numa escola pública da localidade de Paredes, uma escola igual a muitas outras. Igual em todos os defeitos que o senhor permitiu que se estruturassem, dentro de um ensino que deveria ser de todos e para todos. No entanto a Escola Secundária de Paredes é diferente em alguns aspectos, é principalmente diferente no que toca às qualidades e virtudes, isto porque existe toda uma comunidade escolar interessada em todos aqueles assuntos que não lhes dizem respeito.

É este o meu mundo, gosto de ler, de escrever, gosto essencialmente de aprender. Você entrou nele a partir do momento em que foi eleito Primeiro Ministro. Sou sincero, não lhe dei muita importância, mas aos poucos fui conhecendo aquele que viria a ser um dos homens mais importantes da minha vida, você. Foi por sua culpa que descobri algo que realmente me fascina, a política, foi por sua culpa que me interessei por este novo mundo, que se diz para maiores de 18…
Hoje olho para trás e percebo que viria a ser político de qualquer forma, como acredito que qualquer pessoa o é, o senhor apenas apressou este processo. Apenas conseguiu que eu fosse politicamente prematuro, oxalá não o tivesse sido.

Era sinal de que tudo estava diferente. Era sinal, e só por ser sinal já era bom, hoje procuro todos os sinais e não encontro nada.

Hoje já não sonho, percebi a capacidade ilegítima que você tem de brincar com a minha vida. Hoje não tenho presente nem futuro, dizem que foi hipotecado. Hoje sobrevivo e não sei muito bem porquê; se tudo o que eu queria era ser licenciado e entrar no mercado de trabalho, hoje não quero nada. Não quero nada porque tirar um curso implica ser rico, implica ter aquilo que muitos não têm; e entrar para o mercado de trabalho, significa entrar para um mundo precário totalmente à parte, onde se desafiam os direitos humanos, num mundo em que entramos como objectos e simplesmente não saímos.

Sim sou dessa Geração, sem remuneração, do vou queixar-me para que, do casinha dos pais, do já não posso mais, sim sou dessa geração em que para ser escravo é preciso estudar.

E é esta a minha pergunta, é este o meu enorme ponto de interrogação.
Se hoje não tenho presente, nem futuro garantido, se hoje sou mais uma peça num jogo de grandes senhores, porque estudo? Para ser escravo? Para ser menos escravo do que seria se não estudasse?
É esse o patamar máximo de “dignidade” que o estado me pode oferecer?

O meu nome é André, mas como já referi podia ser João, Maria, Ricardo ou Ana; tenho 16 anos mas podia ter 15, 14, 20 ou 25; sou da geração do seu filho, que quando não tiver o pai no poder será um André como eu. Vivo num país chamado Portugal, que é a terra da instabilidade, da escassez, da insegurança, da incerteza, da fragilidade, da debilidade… Os meus pais são funcionários públicos e eu sou filho da precariedade, e para além disso sou também seu “filho”, filho do seu sistema, da sua política.

Certamente não terá tempo para ler o texto até ao fim, certamente não me irá responder, certamente não valerá a pena a nota que infelizmente irei tirar a matemática, certamente nada irá mudar… Mas agora sei que tentei.

Se leu este email até ao fim, agradeço-lhe pelo tempo perdido.


Com os melhores cumprimentos,
O para sempre seu “filho”:
André Moreira.

(Recebido por e-mail)
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Sinta-se Útil!


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EntreAJUDA


Olhar a Natureza!

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Manifesto

"Não consigo fazer uma descrição adequada do Campo de Horror no qual os meus homens e eu próprio íamos passar o mês seguinte das nossas vidas (...). Havia cadáveres por toda a parte, alguns em pilhas imensas, por vezes sozinhos, outras em pares, nos sítios onde tinham caído.
Demorou algum tempo a habituarmo-nos a ver homens, mulheres e crianças em colapso ao passarmos por eles, e a conseguir impedir-nos de ir em sua ajuda. Tivemos desde cedo que ajustar-nos à ideia de que o indivíduo não contava. Sabíamos que morriam 500 por dia, e que 500 iriam continuar a morrer diariamente durante semanas, antes que algo que pudéssemos fazer tivesse o mais pequeno efeito (...).
Foi pouco depois de ter chegado a Cruz Vermelha britânica - ainda que possa não ter qualquer ligação - que recebemos uma larga quantidade de batons vermelhos. Isto não era de todo aquilo que nós, homens, queríamos, pois estávamos desesperados por milhares de outras coisas. Não sei quem pediu batons. Ah, como eu adorava descobrir quem o fez! Foi a acção de um génio, um maravilhoso e brilhante acto não adulterado. Acredito que nada fez mais por aquelas pessoas que o batom. As mulheres ficavam deitadas na cama sem lençóis nem roupa no corpo, mas com intensos lábios vermelhos; viam-se a deambular sem nada mais do que um cobertor sobre os ombros, mas com intensos lábios vermelhos. Vi uma mulher morta na mesa fria para cadáveres apertando na sua mão um batom.
Finalmente alguém tinha feito algo para os fazer sentir de novo pessoas, sentir que eram alguém, não mais apenas um número tatuado num braço. Finalmente conseguiam interessar-se pela sua aparência. Aqueles batons começaram a devolver-lhes, de novo, a sua Humanidade."

(Tradução e adaptação do excerto do diário do tenente-coronel Mervin Willett Gonin DSO que esteve entre os primeiros soldados ingleses a chegar ao campo de morte Nazi de Bergen-Belsen. Este campo foi libertado em Abril de 1945, perto do final da II Guerra Mundial. Texto retirado originalmente do Imperial War Museum e citado no livro Bansky - Wall and Piece (2005), Londres, Century.)
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Este Manifesto mostra-nos que por vezes o que nos salva e dá novos sentidos à existência pode ser insignificante e inesperado. É por vezes algo bem diferente do idealizado, imprevisível e simples, não antecipado, mas que, se estivermos de espírito aberto para notar, aproveitar, saborear, nos reencaminha para uma vida mais bem vivida - mesmo perante o maior dos horrores e dos sofrimentos, como este Manifesto dolorosamente lembra.

(Rivero, C., & Marujo, H. A. (2011), Positiva-mente)
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Feliz Ano Novo!

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Olhar a Pobreza...

No final do ano é costume aparecerem um conjunto de relatórios de grandes instituições internacionais acerca da situação mundial das crianças, da pobreza, da população… Todos eles têm em comum o facto de nos alertar para o alargamento constante do fosso entre ricos e pobres. Tudo se passa como um triste ritual. Como se fosse necessário, em vésperas de festas natalícias, pôr um pouco de amargura, quanto baste, para condimentar um período particular, marcado, nos países ricos, pelo consumismo. Nada de mal nisso, se o ritual contribuísse para tornar mais tolerável o que na realidade é inaceitável. Este é, de facto, um fenómeno perverso que resulta também da grande mediatização que hoje vivemos a propósito das catástrofes, do crime, das injustiças sociais, da pobreza, da fome. Dir-se-ia que o sentimento do escândalo só nos afecta a primeira vez. Lentamente, esse sentimento é domesticado, até se transformar numa normalidade do mundo anormal.
O mundo tornou-se de tal forma complexo, que nos sentimos completamente impotentes para responder aos desafios que se nos colocam no mundo contemporâneo.
A questão que se coloca é a de se saber o que poderemos fazer, nós os mais comuns dos cidadãos, para contrariar este estado de coisas. Aparentemente, nada ou pouco.
Deveríamos, talvez, numa altura de crise económica, como a que atravessamos, começar a olhar para a pobreza dos que nos rodeiam sem o ferrete da nossa crítica acomodada. Quando fazemos notar a dificuldade dos mais pobres em fazerem o seu planeamento familiar, em gerir os seus parcos recursos, e em se formarem e educarem os seus, esquecemo-nos que isso faz parte da sua pobreza. E, sem nos apercebermos, estamos a criar desculpas para a nossa desresponsabilização. Entre esta atitude e a que adoptam os governantes dos países ricos, ao identificarem a incompetência, a corrupção, o tribalismo e o autoritarismo dos países africanos como responsáveis pela sua pobreza, existe apenas uma questão de escala.
Mas arranjar desculpas para a pobreza dos outros é um soporífero para dormirmos descansados.
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(adaptação do texto “É necessário mudar o olhar sobre a pobreza” de Carlos Camponez)
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Consumismo!

Há alguns anos atrás foi realizada em França uma experiência insólita.
Num famosa loja parisiense foram colocados nas prateleiras produtos que tinham sido retirados dos contentores do lixo, depois de devidamente limpos e acondicionados, e com a respectiva etiqueta.
Sucesso total da operação! Empregados e clientes de nada se aperceberam no meio das luzes e do brilho. Tais produtos depressa desapareceram, apesar de custarem “os olhos da cara”. E viva a sociedade do consumo!
Que lição tirar desta experiência rara e cómica?
Vale a pena voltar atrás e olhar para os presentes de Natal que recebemos. E lembrar também os presentes que oferecemos aos nossos familiares e amigos. A maioria deles já perdeu o brilho e o fascínio do primeiro momento. Quantos não terão já ido parar, senão aos contentores do lixo, às prateleiras das coisas supérfluas ou do esquecimento!
Diz-se que o lixo que os habitantes da cidade americana da Manhattan lançam diariamente nos contentores do lixo daria para alimentar cidades inteiras dos países pobres.
Com toda a certeza o que nós deitámos ao lixo neste tempo natalício daria também para alimentar, senão tantas, ao menos algumas dessas cidades. Caiu o pano sobre as festas natalícias. Mesmo depois de apagadas as luzes não é tarde demais para reflectir.


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