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Conto das Três Europas

Três Europas paralelas habitam a UE, cada uma com objetivos próprios. E o orçamento único, que costumava uni-las, é cada vez mais uma fonte de divisão e, a longo prazo, vai tornar-se insustentável.
A primeira Europa, atingida pela crise da dívida, cerra fileiras para se salvar do desastre. Fá-lo com maior ou menor êxito, mas, pelo menos para já, tem-se mantido de pé.
A segunda Europa está na bancada, observando nervosamente como correm as coisas na primeira. Não se quer juntar a ela no imediato, porque não sabe se ela vai sobreviver e tal associação tem custos. Mas teme que, se a primeira Europa sobreviver, o fosso que as separa venha a aumentar muito. E que, quando finalmente se lhe juntar, não tenha peso. Uma esquizofrenia.A terceira Europa já não é realmente Europa. Vive na sombra de uma antiga glória, coberta pela pátina de um império, convencida da sua singularidade e capacidade de sobreviver sem as outras Europas. É dominada pelo egoísmo nacional. É por isso que a terceira Europa adverte a primeira e a segunda de que não hesitará em bloquear o seu avanço, se tiver que defender os seus próprios interesses. Porque eles estão acima de tudo o resto.
Os países da primeira Europa estão a tentar avançar na integração e coordenação das suas políticas económicas, ficando o controlo dos países mais fortes sobre os mais fracos cada vez mais apertado. A Europa n.º 2 está a tentar controlar o que está a acontecer na Europa n.º 1, porque estamos todos no mesmo comboio. A Europa n.º 3 está contente por se ter dado a divisão, porque há muito que tinha vontade de seguir o seu próprio caminho.
Não é difícil adivinhar quem é quem nesta história. A primeira é a Europa da Zona Euro – 17 países que adotaram uma moeda comum, para o melhor e para o pior. A segunda Europa são os países fora da Zona Euro: a Escandinávia e os novos Estados-membros, nomeadamente a Polónia. A maioria deles, com a exceção da Dinamarca, não têm nem vão ter opção e acabarão por aderir ao euro – mas ninguém sabe quando isso pode acontecer. A terceira Europa é a Grã-Bretanha. Grande apenas no nome, duramente atingida pela crise, a lidar com o separatismo escocês, cada vez mais marginalizada na UE.
O orçamento comunitário uniu as três Europas até agora, mas está a começar a dividi-las. Berlim propõe um orçamento separado para a Zona Euro, isto é, a Europa n.º 1.
A Alemanha paga, portanto exige!
Assim, um orçamento único para as três Europas é indefensável.

(artigo de Jacek Pawlicki, publicado a 11 outubro 2012 na Gazeta Wyborcza - Varsóvia)

Os europeus são demasiado diferentes para se entenderem

Mais que as diferenças entre os desempenhos económicos dos países da UE, são os fossos culturais entre europeus que representam o principal obstáculo à criação de uma comunidade verdadeiramente homogénea. Não espanta, pois, que seja tão difícil construí-la. Muitos tentaram unificar a Europa. Todos deram com a cabeça na parede: Átila, Carlos Magno, Napoleão, Hitler. A mais recente tentativa é a da União Europeia. Que não avança a golpes de espada, já que a Europa, depois de Hitler, se tornou um continente pacifista, adotando antes meios inofensivos, como a boa vontade, instituições comuns, leis e regulamentos. O euro foi a mais recente – e provavelmente a mais ousada – das iniciativas em prol de uma Europa unificada. A origem do moderno projeto europeu é política, ainda que o foco tenha sido colocado, desde o início, sobre a economia. A economia desempenhou, indubitavelmente, um papel decisivo para afastar a guerra da Europa e, nesse sentido, a cooperação europeia tem sido um enorme êxito, desde 1945. Mas a cooperação económica não basta para o que precisamos de construir hoje. A crise do euro veio ensinar-nos que essa cooperação tem algumas limitações, que são sobretudo históricas e culturais. Porque a Europa é, sem dúvida, a região mais complexa do mundo. Num espaço relativamente pequeno, mais de 300 milhões de pessoas tentam formar uma união, quando não é necessário afastar-se muito para deixar de entender o que diz o vizinho, para encontrar pessoas que comem e bebem coisas desconhecidas, que cantam outras canções, que celebram outros heróis, que têm outra relação com o tempo, outros sonhos e outros fantasmas. É provável que sejam principalmente as nossas diferenças culturais – e não políticas ou económicas – a fazer com que a história europeia esteja repleta de hostilidade e de violência, a começar pelas duas mais terríveis guerras que a humanidade já conheceu, as quais não foram, afinal, mais do que guerras civis europeias. No entanto, tudo isso parece ter sido esquecido ou ignorado. Para não dizer desconhecido. De tal modo que o discurso europeu que nos impingem quotidianamente – a bandeira, Beethoven, a Eurovisão, etc. – pouco tem a ver com a realidade europeia. É um mero produto de propaganda, de um projeto que não quer ouvir falar de diferenças culturais ou mentais, que são, contudo, nitidamente mais profundas do que as diferenças materiais ou financeiras. Na realidade, foi preciso esperar pela crise europeia para abrirmos os olhos para o fosso que separa a retórica da realidade. Para nosso espanto, a crise revelou-nos pessoas que nunca pagaram impostos, que consideravam que os outros tinham obrigação de pagar as dívidas por elas e que acusavam de despotismo os que lhe estendiam a mão. Não sabíamos da existência de tais europeus e ficamos incrédulos. No entanto, essa é a realidade e vem de há muito. É assim a nossa Europa. E repare-se que o Norte não é menos estranho que o Sul, e o Leste não o é menos que o Ocidente, e vice-versa. É tudo uma questão de ponto de vista. A Europa não é nem mais nem menos do que uma colmeia extremamente frágil, composta por especificidades culturais, históricas e mentais. Nenhum europeu se parece verdadeiramente com os outros. E, no entanto, preferimos encarar essa Europa não como uma colmeia, mas como um frasco de mel, pronto a consumir.
 
(artigo do jornalista Richard Swartz, publicado no jornal sueco "Dagens Nyheter" de 22-08-2012)

Rugas cada vez mais profundas

"Mesmo que ocorresse agora uma mudança gigantesca, a pirâmide demográfica atual demoraria 20 anos a chegar a níveis mais equilibrados", assegura Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia.
José Ribeiro, economista e diretor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, recorda que, em 2000, o número de jovens, em Portugal, foi superado pelo número de idosos. Em 30 anos a percentagem de pessoas com mais de 65 anos passou de 11% para 17,5% e, mantendo-se esta tendência, as previsões do Instituto Nacional de Estatística apontam para que, em 2050, cerca de 80% da população portuguesa estará envelhecida e dependente. Preocupante!

Estes indicadores, que poderiam ser motivo de regozijo, em virtude de refletirem um aumento da esperança média de vida, terão um forte impacto quer a nível da sustentabilidade da Segurança Social, quer no equilíbrio da despesa pública, com o acréscimo de encargos com os idosos.
As causas apontadas para a alteração da taxa de natalidade e o consequente envelhecimento da população, são:
a) a crise económica tem levado os trabalhadores estrangeiros a abandonar Portugal, ameaçando descer ainda mais o índice de fecundidade, o qual vinha a ser positivamente influenciado pelos jovens casais de imigrantes que tinham chegado ao nosso país nos últimos anos;
b) por outro lado, assistimos à saída, para outros países, de muitos portugueses, em idade de casar e ter filhos.

Em resumo, não se pode ambicionar ter uma economia mais competitiva, apostando em produtos e serviços mais sofisticados, ao mesmo tempo que se desinveste na educação e na ciência e se aponta o caminho da emigração aos ativos mais jovens e mais qualificados.

(adaptação de uma reportagem de Rita Montez, publicada na revista Visão de 12.07.2012)

Os Consumidores e a Crise Internacional

Sem que a maioria dos consumidores se tivesse apercebido, evoluímos de uma sociedade de consumo de massas para a sociedade da hiperescolha em pouco mais de uma década.
Assim, de acordo com estudos sociológicos entretanto realizados, foi traçado o perfil do novo consumidor:  é egoísta, desconfiado, volátil e infiel às marcas; procura conforto, bem-estar, segurança, prazer e preocupa-se com a saúde mais do que em qualquer outra época; é individualista, procura ser consciente nas suas escolhas, mas é apressado e mau cidadão.
Faça uma comparação entre as marcas de electrodomésticos que tem hoje em casa e aquelas que tinha há 20 anos e, certamente, vai ficar surpreendido com as diferenças...
A escolha de novas marcas foi determinada, em muitos casos, pela globalização. Na sociedade da hiperescolha estamos constantemente a ser confrontados com o aparecimento de marcas de que nunca tínhamos ouvido falar e o desaparecimento de outras que nos eram familiares.
Hoje, o consumidor quer lojas com horários alargados, para poder fazer as suas compras no horário que mais lhe convém. Quer informação curta, em tempo real, mas também especializada, capaz de aprofundar os temas que mais lhe agradam.
Até ao início da década de 90, a sociedade de consumo visava a satisfação de necessidades básicas, mas na fase da hiperescolha a maioria dos consumidores já satisfez essas necessidades e procura encontrar, no acto de consumo, o complemento do prazer.
O mercado percebeu isso e optou por um modo de produção segmentado que fosse de encontro aos interesses particulares dos consumidores jovens, adultos e seniores.
Esta metamorfose do consumidor, obrigou as empresas a uma nova postura no mercado. Por outras palavras, as empresas perceberam que já não viviam num mercado comandado pela oferta, mas sim num mercado dominado pela procura, onde o consumidor exige um tratamento individualizado, exige que cada empresa tenha um produto ou serviço que se adequa às suas exigências e características.
Tudo funcionou bem, enquanto os consumidores tiveram dinheiro para satisfazer os seus desejos.
Quando deixaram de ter dinheiro para comprar produtos, a economia ressentiu-se, a produção retraiu-se e agora há necessidade de reactivar o poder de compra dos consumidores para que tudo volte à normalidade.
Para os consumidores terem poder de compra, têm necessidade de ter meios de subsistência, o que significa postos de trabalho com salários que lhes garantam a possibilidade de adquirir esses produtos.
É neste equilíbrio que se joga o futuro. Será que os consumidores já perceberam?

(adaptação de um texto de Carlos Barbosa Oliveira, publicado na revista Tempo Livre n.º 200 de Jan/09)

Uma economia que não é para jovens

“Os jovens que acabam o ensino superior, hoje, devem contar ser mais pobres do que os pais, um fenómeno sem par na sociedade depois de 1945. E o falido modelo económico ocidental não pode aproveitar a mestria desta geração perdida em matéria de novas tecnologias.
Os alunos com formação universitária, a quem foi recusada a educação liberal e folgada da geração dos pais, têm sido confrontados, quase desde a puberdade, com uma bateria de testes psicométricos, exortações à excelência e escolhas vocacionais limitativas.
Para o futuro ser melhor, precisamos de romper com um modelo económico que já não funciona. Porque a “formação universitária sem futuro” é a expressão humana de um problema económico: o modelo ocidental caducou. Não consegue distribuir suficiente trabalho de alto valor para uma força de trabalho altamente qualificada. Além disso, o bem essencial – a formação académica – custa agora tão caro que vai levar décadas de trabalho com baixos salários a pagá-lo.
Com o desemprego juvenil a atingir 50% nos países mais afetados da periferia da Europa e a crise a arrastar-se ano após ano, há um ar de afrouxamento a penetrar a cultura dos jovens adultos.
Tal como criou, a partir do nada, formas de protesto que romperam com o passado, esta geração está a criar formas de negócio e comércio, literatura e arte, que vivem nas frestas geradas pelo encolhimento do PIB e o colapso do crédito.
Esta é a primeira geração capaz de tratar o conhecimento como se fossem programas informáticos: disponível para transferir da Net, utilizar e proceder à eliminação final. Partem com níveis de conhecimento que as gerações anteriores tiveram que aprender através de um longo processo de elaboração e de aquisição de competências. Agora só precisam que o modelo económico convirja com o potencial humano que a tecnologia criou.
À medida que os anos foram passando a realização dos licenciados sem futuro diminuiu: há que moldar o futuro com as próprias mãos. E se olharmos com atenção – para lá das barbas desgrenhadas e do rímel esborratado –, estão a fazê-lo bastante bem.”

 
(adaptação de um texto de Paul Mason, publicado no jornal The Guardian de 04.07.2012)

Viver e Morrer em Austeridade

Três tristes notícias da crise na Europa: aumentam os suicídios, regressa a fome e até o sangue dos desempregados desperta cobiça.

Fome em Dublin: um inquérito realizado a 16 mil crianças, entre os 9 e os 18 anos, revelou que 21% dos alunos se queixava de ter frequentado as aulas com fome "por não ter comida suficiente em casa". Este fenómeno atinge, em especial, as crianças mais novas, oriundas de classes baixas.

Aumentam os suicídios: as principais razões apontadas são as dificuldades financeiras, o desemprego e a solidão. As vítimas são, sobretudo, homens desempregados. Irlanda, Grécia e Itália surgem no topo da lista das últimas estatísticas efectuadas sobre este flagelo.

Desempregados vendem sangue: a maior empresa mundial de venda de plasma sanguíneo, a Grifols, quer que o Governo espanhol liberalize o mercado de sangue, permitindo aos desempregados espanhóis vender sangue (à semelhança do que acontece nos EUA). "Numa época de crise, se pudéssemos ter centros de venda de plasma, poderíamos pagar 60 euros por semana, que somados ao subsídio de desemprego são uma forma de viver", disse Vítor Grifols ao jornal El País.  

(adaptação de um texto de Paulo Pena, publicado na revista Visão n.º 999)

Em Nápoles, as crianças voltam ao trabalho

Nesta cidade, que está entre as mais pobres da Europa, milhares de crianças deixam a escola para ajudarem os pais a fazerem face às despesas. Fazem pequenos trabalhos não declarados ou são recrutados para os trabalhos sujos da máfia. Um fenómeno que a crise acentuou.
 
Sete horas da manhã, San Lorenzo, no coração de Nápoles. Um miúdo corre pelo labirinto de ruelas húmidas, com uma pesada caixa de conservas debaixo do braço. Casaco acinzentado, capuz na cabeça e sapatos de ténis muito usados, o pequeno Gennaro começa o seu dia de trabalho.
Ninguém se espanta de o ver a labutar tão cedo. Em setembro de 2011, Gennaro foi contratado por uma mercearia. Seis dias por semana, dez horas por dia, arruma prateleiras, descarrega caixas e entrega compras no bairro.
Gennaro sonhava ser informático, mas é moço de recados numa loja, a profissão mais comum entre as crianças trabalhadoras de Nápoles. Trabalha ilegalmente, por menos de um euro à hora, e ganha, no máximo, 50 euros por semana. Gennaro acaba de fazer 14 anos.
Segundo um relatório alarmante, publicado em 2011 pela autarquia, entre 2005 e 2009, 45 mil crianças em toda a Campânia, a região de Nápoles, abandonaram o sistema de ensino: 38% tinham menos de 13 anos.
Moços de recados em lojas, empregados de café, entregadores de compras, aprendizes de cabeleireiro, ajudantes nas fábricas de curtumes do interior e nas marroquinarias das grandes marcas, “paus para a toda a colher” nos mercados, estão por todo o lado, visíveis, a trabalhar à luz do dia, perante uma indiferença quase geral - Aos 10 anos, as crianças trabalham dez horas por dia!
É verdade que sempre fomos a região mais pobre de Itália. Mas desde o fim da II Guerra Mundial que não se via uma coisa assim”, diz Sergio d'Angelo, adjunto do município de Nápoles. “Aos dez anos, estes miúdos já trabalham doze horas por dia, uma verdadeira negação do seu direito a crescerem.” Os pais vivem na ilegalidade e, a qualquer momento, os serviços sociais podem retirar-lhes a criança e coloca-la numa família de acolhimento.
"O Estado que abandona as suas crianças"
Em Nápoles, os filhos das famílias pobres não têm outro remédio senão agarrarem-se aos estudos ou começarem a trabalhar ilegalmente. Uma terceira opção é juntarem-se aos grupos da Camorra, a máfia napolitana.
É contra esta escolha brutal que luta Giovanni Savino, 33 anos, professor especializado. O seu território é um dos piores bairros de Nápoles: Barra, verdadeiro supermercado de droga, uma zona escura, cheia de prédios a desabar sob a influência dos clãs da Camorra.
Todas as semanas, Giovanni Savino vai ao colégio Rodino, uma escola da zona, plantada no coração dos bairros de habitação social. Aqui, o tráfico está no auge, e uma em cada duas crianças falta à escola cem dias por ano.
Segundo a lei, depois de faltarem sessenta dias, deveriam ser expulsos. A diretora da escola, Annunziata Martire, e o professor, lutam contra o relógio: uma vez por semana, ela entrega-lhe a lista dos faltosos. Giovanni Savino tem dez dias para encontrar uma solução, antes da intervenção dos serviços sociais.
A maior parte das vezes, é ele que se encarrega de os fazer passar ao estatuto de alunos livres, para evitar que sejam retirados aos pais e colocados em famílias de acolhimento.
Os funcionários do município já não se atrevem a aproximar-se dos prédios de habitação social e são poucos os professores capazes de entrarem na Barra, como faz Giovanni Savino.
A sua associação chama-se Il Tappeto di Iqbal, o “Tapete de Iqbal”, inspirado no nome de uma criança-escrava paquistanesa que se revoltou e foi assassinada.
Giovanni Savino é um homem furioso, contra os mafiosos, contra uma educação falhada, e contra o Estado, “que abandona as suas crianças”. Em Itália, não existem gabinetes de apoio social. O apoio aos jovens e às famílias depende da energia de 150 associações que vivem exclusivamente dos subsídios atribuídos pelo município. Há dois anos que os vinte mil professores da Campânia não recebem salário e têm de se endividar para trabalharem. Sem financiamento, o “Tapete de Iqbal” fechará as suas portas.
No entanto, Giovanni Savino já arrancou dezenas de miúdos da Barra das garras de empregadores sem escrúpulos ou dos grupos mafiosos que ali vão recrutar os seus futuros soldados.
Carlo é um dos seus primeiros resgatados. Aos 13 anos, criança-assassino já tatuado, extorquia, roubava e esfaqueava às ordens do clã Aprea. Quatro anos depois, Carlo tornou-se o braço direito de Giovanni Savino, a quem devota absoluta lealdade: “Giovanni não se limita só a arranjar-te a licença para passares a aluno livre. Não te larga. Salvou-me a vida.”
Depois de Carlo, houve Marco, cocainómano aos 12 anos e especialista em roubos de carteiras. E Ciro, aluno brilhante, que se tornou empregado de mesa para salvar a família, que tinha caído nas mãos dos usurários mafiosos.
Do último, Pasquale, de 11 anos, Giovanni Savino diz que é o seu maior desafio. Quando o pôs sob a sua asa, já lá vão nove meses, Pasquale tinha deixado a escola e passava fome.
Para ajudar a família, este rapazinho de 1,30 metros, com a cara semeada de sardas, descarregava caixas num supermercado. À noite, ia roubar cobre para as lixeiras e para os armazéns de Trenitalia.
No bairro da Barra, o cobre e o alumínio são negociados na candonga a 20 euros o quilo. E o tráfico é o negócio das crianças. Quando se lhe pergunta o que quer fazer quando for grande, Pasquale, de repente, fica mudo. Depois choraminga: “Vou fazer o que puder”.

(excerto de uma reportagem da jornalista Cécile Allegra, publicada no jornal francês Le Monde de 30.03.2012)

Emigração, uma bela miragem

Após assistir ao nascimento da "geração parva" de jovens precários, a crise levou as famílias a sair do país para procurar trabalho na Europa. Mal preparados, sem saberem falar outras línguas e sem recursos, acabam muitas vezes a viver na rua.
A expressão "emigração parva" é usada pelo representante do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) no Luxemburgo, Eduardo Dias, para descrever a nova vaga de pessoas que tem chegado ao país do centro da Europa. São casais, entre os 35 e os 50 anos, que chegam com os filhos menores e sem garantias de trabalho, sem falar a língua e transportando apenas o conceito (errado) de que há um emprego à sua espera ao virar da esquina.
O retrato deste grupo de emigrantes portugueses, que está a crescer, lado a lado, com os jovens qualificados que tentam a sorte fora do país, é repetido por vozes que falam de outros cantos da Europa: Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Alemanha e, de forma mais veemente, na Suíça. Foi daqui que soou o alarme, com a denúncia de portugueses que dormiam na rua sob temperaturas gélidas. E não há quem acredite que a situação vá melhorar em breve.
Os números são muitos e apontam todos no mesmo sentido – são cada vez mais os portugueses que deixam o país. No final de 2011, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, admitia que 100 a 120 mil portugueses tinham abandonado o país só naquele ano. No portal da mobilidade profissional Eures, as candidaturas portuguesas saltaram para mais do dobro, entre 2008 e 2011. As inscrições nos postos consulares também apontam para uma população cada vez maior a viver fora de Portugal: em dois anos, entre 2008 e 2010, o número cresceu em 324 mil pessoas.
Em Zurique, onde vive, o presidente da Comissão de Fluxos Migratórios do Conselho de Comunidades Portuguesas e Conselheiros da Comunidade Portuguesa na Suíça, Manuel Beja, continua a ver chegar os autocarros carregados de portugueses. A situação, diz, começou a agravar-se logo em 2008, e em 2010 já estava a enviar para Portugal os primeiros alertas. "O Governo de José Sócrates reagiu muito mal, classificaram-me mesmo de irresponsável. Foi pena, porque esta situação é difícil de travar, mas podia estar já a ser tratada outra forma", comenta.

(notícia da jornal Público, de 19.03.2012)

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