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Até quando voltarão as cegonhas?

Quando, em finais de Janeiro, as cegonhas regressam ao seu velho ninho, no alto do campanário da igreja, nas ameias do castelo ou no topo de uma velha árvore, sabemos que o bom tempo e a primavera se aproximam.
Existe, aliás, um velho ditado português que assinala o seu regresso: "Pelo São Brás a cegonha verás". Efectivamente, o dia de São Brás assinala-se a 3 de Fevereiro.
Assim tem sido ao longo dos tempos, mas a dúvida surge quando avaliamos as alterações climáticas e constatamos que árvores e plantas florescem fora da sua época normal, o calor e o frio excessivos se mantêm por períodos prolongados, ou, pelo contrário, se revelam mais curtos, obrigando a mudanças drásticas no nosso dia a dia.
Num encontro recentemente realizado em Durban, na África do Sul, onde se reuniram especialistas de mais de 190 países, todos concordaram quanto à necessidade de chegar a acordo sobre a redução das emissões de carbono - uma das principais causas das alterações climáticas.
Depois do Acordo de Kioto, que não foi assinado pelos três maiores poluidores mundiais, a redução ficou agendada para 2015, provocando um adiamento na resolução deste problema. Nesta perspectiva, o velho ditado sobre o regresso das cegonhas poderá, também, vir  a ser alterado, sintoma de que muita coisa está a mudar.
Na Europa, as cegonhas sempre foram recebidas como mensageiras da primavera e da felicidade e, nos países nórdicos, colocam-se cestos nos telhados para encorajar a fazer ali os seus ninhos. Estas aves, depois de passarem o inverno em terras mais quentes, sobretudo entre o sul de Marrocos e o Mali, voam cerca de 2.000 km sobre o árido deserto no regresso às suas áreas de nidificação. Como preferem voar sobre terra, a fim de aproveitarem as correntes de convexão que as auxiliam no voo planado, atravessam o Mediterrâneo no Estreito de Gibraltar, para Espanha e Portugal, e na ponta da "bota" de Itália para os restantes países, onde encontram condições para a sua reprodução, um clima ameno e alimento para os filhos, aos quais dispensam extraordinários cuidados.
É muito possível que a ideia do bebé transportado de Paris no bico da cegonha tenha nascido do facto destas aves serem um exemplo do amor paternal, nunca abandonando o ninho durante o período de incubação dos ovos, que dura cerca de um mês, durante o qual a fêmea é alimentada pelo macho, revezando-se após o nascimento das crias numa vigilância constante. A dedicação é tal que, num incêndio em Delft, na Holanda, uma cegonha morreu num telhado, preferindo ficar no ninho a abandonar os filhos incapazes de voar.
São também curiosos os carinhos que os filhotes dispensam aos pais, julgando-se, na Antiguidade, que esta ave alimentava e tratava os progenitores quando estes eram velhos, arrancando as próprias penas para os proteger do frio.
Na Grécia chegou a existir a Lei da Cegonha (Lex Ciconia), segundo a qual os filhos eram obrigados a sustentar os pais na velhice, sendo fortemente punidos se não o fizessem.
Desde sempre, portanto, e de um modo geral, o homem habituou-se a reconhecer na cegonha qualidades dignas do maior apreço - note-se a fidelidade com que regressam ao mesmo ninho. Hoje, e se nada for feito entretanto no que diz respeito às alterações climáticas, resta-nos perguntar até quando voltarão as cegonhas?

(texto de Gil Montalverne, publicado na revista Montepio Jovem - n.º 26)

1 observações:

  1. António Querido disse...

    OLÁ!
    Respondendo à chamada, agradecendo a visita à figueiraminha e de certo modo atraído pelas belas imagens do seu blog, aqui estou seguindo suas "Observações"!
    Com o meu abraço

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