.
.

Rugas cada vez mais profundas

"Mesmo que ocorresse agora uma mudança gigantesca, a pirâmide demográfica atual demoraria 20 anos a chegar a níveis mais equilibrados", assegura Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia.
José Ribeiro, economista e diretor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, recorda que, em 2000, o número de jovens, em Portugal, foi superado pelo número de idosos. Em 30 anos a percentagem de pessoas com mais de 65 anos passou de 11% para 17,5% e, mantendo-se esta tendência, as previsões do Instituto Nacional de Estatística apontam para que, em 2050, cerca de 80% da população portuguesa estará envelhecida e dependente. Preocupante!

Estes indicadores, que poderiam ser motivo de regozijo, em virtude de refletirem um aumento da esperança média de vida, terão um forte impacto quer a nível da sustentabilidade da Segurança Social, quer no equilíbrio da despesa pública, com o acréscimo de encargos com os idosos.
As causas apontadas para a alteração da taxa de natalidade e o consequente envelhecimento da população, são:
a) a crise económica tem levado os trabalhadores estrangeiros a abandonar Portugal, ameaçando descer ainda mais o índice de fecundidade, o qual vinha a ser positivamente influenciado pelos jovens casais de imigrantes que tinham chegado ao nosso país nos últimos anos;
b) por outro lado, assistimos à saída, para outros países, de muitos portugueses, em idade de casar e ter filhos.

Em resumo, não se pode ambicionar ter uma economia mais competitiva, apostando em produtos e serviços mais sofisticados, ao mesmo tempo que se desinveste na educação e na ciência e se aponta o caminho da emigração aos ativos mais jovens e mais qualificados.

(adaptação de uma reportagem de Rita Montez, publicada na revista Visão de 12.07.2012)

Os Consumidores e a Crise Internacional

Sem que a maioria dos consumidores se tivesse apercebido, evoluímos de uma sociedade de consumo de massas para a sociedade da hiperescolha em pouco mais de uma década.
Assim, de acordo com estudos sociológicos entretanto realizados, foi traçado o perfil do novo consumidor:  é egoísta, desconfiado, volátil e infiel às marcas; procura conforto, bem-estar, segurança, prazer e preocupa-se com a saúde mais do que em qualquer outra época; é individualista, procura ser consciente nas suas escolhas, mas é apressado e mau cidadão.
Faça uma comparação entre as marcas de electrodomésticos que tem hoje em casa e aquelas que tinha há 20 anos e, certamente, vai ficar surpreendido com as diferenças...
A escolha de novas marcas foi determinada, em muitos casos, pela globalização. Na sociedade da hiperescolha estamos constantemente a ser confrontados com o aparecimento de marcas de que nunca tínhamos ouvido falar e o desaparecimento de outras que nos eram familiares.
Hoje, o consumidor quer lojas com horários alargados, para poder fazer as suas compras no horário que mais lhe convém. Quer informação curta, em tempo real, mas também especializada, capaz de aprofundar os temas que mais lhe agradam.
Até ao início da década de 90, a sociedade de consumo visava a satisfação de necessidades básicas, mas na fase da hiperescolha a maioria dos consumidores já satisfez essas necessidades e procura encontrar, no acto de consumo, o complemento do prazer.
O mercado percebeu isso e optou por um modo de produção segmentado que fosse de encontro aos interesses particulares dos consumidores jovens, adultos e seniores.
Esta metamorfose do consumidor, obrigou as empresas a uma nova postura no mercado. Por outras palavras, as empresas perceberam que já não viviam num mercado comandado pela oferta, mas sim num mercado dominado pela procura, onde o consumidor exige um tratamento individualizado, exige que cada empresa tenha um produto ou serviço que se adequa às suas exigências e características.
Tudo funcionou bem, enquanto os consumidores tiveram dinheiro para satisfazer os seus desejos.
Quando deixaram de ter dinheiro para comprar produtos, a economia ressentiu-se, a produção retraiu-se e agora há necessidade de reactivar o poder de compra dos consumidores para que tudo volte à normalidade.
Para os consumidores terem poder de compra, têm necessidade de ter meios de subsistência, o que significa postos de trabalho com salários que lhes garantam a possibilidade de adquirir esses produtos.
É neste equilíbrio que se joga o futuro. Será que os consumidores já perceberam?

(adaptação de um texto de Carlos Barbosa Oliveira, publicado na revista Tempo Livre n.º 200 de Jan/09)

Uma economia que não é para jovens

“Os jovens que acabam o ensino superior, hoje, devem contar ser mais pobres do que os pais, um fenómeno sem par na sociedade depois de 1945. E o falido modelo económico ocidental não pode aproveitar a mestria desta geração perdida em matéria de novas tecnologias.
Os alunos com formação universitária, a quem foi recusada a educação liberal e folgada da geração dos pais, têm sido confrontados, quase desde a puberdade, com uma bateria de testes psicométricos, exortações à excelência e escolhas vocacionais limitativas.
Para o futuro ser melhor, precisamos de romper com um modelo económico que já não funciona. Porque a “formação universitária sem futuro” é a expressão humana de um problema económico: o modelo ocidental caducou. Não consegue distribuir suficiente trabalho de alto valor para uma força de trabalho altamente qualificada. Além disso, o bem essencial – a formação académica – custa agora tão caro que vai levar décadas de trabalho com baixos salários a pagá-lo.
Com o desemprego juvenil a atingir 50% nos países mais afetados da periferia da Europa e a crise a arrastar-se ano após ano, há um ar de afrouxamento a penetrar a cultura dos jovens adultos.
Tal como criou, a partir do nada, formas de protesto que romperam com o passado, esta geração está a criar formas de negócio e comércio, literatura e arte, que vivem nas frestas geradas pelo encolhimento do PIB e o colapso do crédito.
Esta é a primeira geração capaz de tratar o conhecimento como se fossem programas informáticos: disponível para transferir da Net, utilizar e proceder à eliminação final. Partem com níveis de conhecimento que as gerações anteriores tiveram que aprender através de um longo processo de elaboração e de aquisição de competências. Agora só precisam que o modelo económico convirja com o potencial humano que a tecnologia criou.
À medida que os anos foram passando a realização dos licenciados sem futuro diminuiu: há que moldar o futuro com as próprias mãos. E se olharmos com atenção – para lá das barbas desgrenhadas e do rímel esborratado –, estão a fazê-lo bastante bem.”

 
(adaptação de um texto de Paul Mason, publicado no jornal The Guardian de 04.07.2012)

.
As imagens que ilustram os textos publicados neste blogue são seleccionadas, aleatoriamente, através do motor de busca Google. Agradecemos aos respectivos autores o enriquecimento visual que os seus trabalhos proporcionam e, se não divulgamos a sua origem é porque, na maioria dos casos, a mesma é, para nós, desconhecida. Para salvaguarda dos direitos de autor, estamos à inteira disposição dos eventuais lesados, para revelar a identidade do criador das fotos e/ou desenhos publicados. Observador@
.