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Encher as Medidas

Os jornais são seres altamente sensíveis ao Verão. Sofrem de uma espécie de alergia à época balnear. De um modo geral, as pessoas regozijam-se com estes belos dias de céu limpo e sol quente. Já o mesmo não se passa com os jornais. Preferem os dias de céu plúmbeo e sol murcho. Simplesmente porque é quando tudo acontece. É quando as instituições até funcionam, o País trabalha e a chuva vai caindo na mesma proporção em que chovem notícias nas redações. Chega o Verão e pronto: não há notícias. Conscientes da escassez de matéria-prima, os jornais mergulham então numa terrível angústia para serem logo atacados por uma maleita cientificamente identificada como S.A.N. (Síndroma de Ausência de Notícias). Mas a S.A.N. pode ainda ser acompanhada por uma estranha torrente de achaques. À base de tremuras nos dedos - resultante da esponjiformidade dos músculos das mãos - estas macacoas são os primeiros sintomas de uma outra doença. É a chamada F.P.B., ou Fobia das Páginas em Branco. Na maior parte das situações, a F.P.B. acaba, no entanto, por ser controlada com a ajuda de um mecanismo psicossomático de autodefesa - mas de carácter esquizoide - descambando depois naquilo a que os psiquiatras se referem como D.E.C., ou a Doença de Encher Chouriços.

(texto de Francisco Camacho, in Vida/O Independente)

Esta é a nossa casa

Não é uma casa erguida tijolo a tijolo. Assemelha-se mais a um ninho fabricado com fibras extraídas das entranhas: esperança, negação, ternura, compreensão.
Ao logo do caminho calcorreado nesta nossa peregrinação, uma e outra vez brilharam os olhos do lobo das estepes, que queria esfacelar a unidade; muitas vezes, também, a tentação da fuga assomou à nossa beira: "Vou-me embora, esta casa não é minha". Mas a tentação foi exorcizada.
Não foi fácil a jornada. Nas tardes gélidas de inverno, quantas vezes se nos congelou o pensamento, ao duvidarmos se nos teríamos enganado no caminho! Quantas vezes nos interrogámos: Teremos feito a opção correta? Não nos conhecíamos. Serás, de facto, tu para mim e eu para ti? Será esta, de verdade, a nossa casa? Mas uma  e outra vez conseguimos afugentar os fantasmas e retomar o caminho, empreendendo de novo a marcha.
Com gozos singelos, alegrias caladas, podando ramos, limando arestas, morrendo um pouco, dialogando com doçura..., a casa foi-se erguendo pedra a pedra, dia a dia, a golpes de silêncio e paciência, e assim chegámos a alturas muito elevadas.
A casa é um sonho alcançado, uma atmosfera impregnada de gozo, banhada de serenidade, ensopada em confiança, que nos acolhe e envolve os dois com os seus braços, fazendo de dois corações um só coração.
Esta é a nossa casa.

(texto do livro O Matrimónio Feliz de Ignacio Larrañaga)

Saber Envelhecer


Em Portugal, a população com mais de 85 anos quadruplicou nas últimas quatro décadas.
A esperança de média de vida dos portugueses passou de 35 anos, no início do século XX, para os atuais 85 para as mulheres e 79 para os homens. Contudo, os estudos mostram que viver mais não é viver melhor, já que quanto mais velhos são os indivíduos mais isolados se encontram.
É nas grandes cidades, onde mais se sente o envelhecimento, que o risco de isolamento é maior. Neste capítulo, Portugal segue a tendência mundial de envelhecimento.
A ONU prevê que, a manterem-se as atuais taxas de fertilidade, a população mundial deverá estabilizar por volta de 2100. Na maioria dos países, Portugal incluído, o aumento da esperança de vida resultou não apenas da melhoria das condições económicas e sanitárias, mas também do desenvolvimento da indústria do medicamento.
O aumento exponencial do número de doentes crónicos, bem como da percentagem de população idosa, faz disparar as despesas com a saúde. Isto, em conjunto com taxas de natalidade progressivamente mais baixas, põe em causa a viabilidade do financiamento dos atuais sistemas de saúde.
Em termos sociais ser velho não é coisa boa, tanto assim que todas as pessoas empurram a idade da velhice em função do seu próprio envelhecimento, em suma, “velhos são os outros”. Do ponto de vista simbólico, em Portugal, a velhice é vista como doença, solidão, abandono, desvalorização… Poucos ou nenhuns atributos positivos lhe são associados pela maioria dos próprios idosos” – refere Manuel Villaverde Cabral, diretor do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa.
No entanto, nem tudo é negativo. Com o aumento da longevidade, muitas pessoas de idade prestam agora mais apoio aos filhos e, sobretudo, aos netos, o que, em princípio, é bom para ambos.
A diminuição do número de pessoas em idade produtiva e a necessidade de financiar um sistema que sustente um cada vez maior número de idoso poderá levar, a médio prazo, a um adiamento da idade da reforma.
Na opinião de Jorge Mineiro, diretor clínico do Hospital CUF-Descobertas, “saber envelhecer com saúde é, hoje, um grande chavão, mas penso que é uma arte muito difícil de conseguir. Podemos viver mais, mas muitas vezes vivemos com mais problemas.”
As tecnologias da informação têm um papel determinante numa sociedade envelhecida, ajudando a combater o isolamento e a estabelecer pontes entre gerações.
Em suma, vamos viver mais tempo mas depende de nós viver da melhor forma. A tecnologia e a investigação estão do nosso lado mas ainda são os genes que mandam.


(adaptação do artigo “Saber Envelhecer” de Susana Torrão, publicado na revista Montepio 03/2011)  

Usos e Gastos


Usados somos na vida
Roubados, espoliados
Induzidos, programados
Com os recursos mais vastos
De tal forma que entre os usos
Obrigaram-nos aos gastos
Somos usados e ao lado
Ensinados a usar
E se nos sobra dos usos
O que fica é para gastar

Eles usam nossos corpos
Nossas almas, nossas mentes
Usam o ventre das mulheres
Onde vão nossas sementes
Eles usam nossa pele
Nossos braços, nossas mãos
E nos obrigam a gastar
Pela casa e pelo chão
E pela água que bebemos
Pelo banho que tomamos
Pelo sorriso que demos
Pelo ar que respiramos
Pelos planos que fazemos
Gastamos mais nos gastamos

E entre gastos e usos
Vivendo vamos de rastos
Já que os gastos vêm do uso
E pelos usos somos gastos


(Paulo Canella, revista Humanidades n.º 5 / 2002)

Máquinas: Amigas ou Inimigas?

Para onde quer que nos viremos elas estão lá, fazem parte do nosso dia-a-dia, da nossa sociedade e a verdade é que já não podemos viver sem elas.
O desenvolvimento das novas tecnologias tem alterado não só o modo como comunicamos e nos relacionamos, mas também a forma como pensamos e aprendemos.
As vantagens proporcionadas pelo uso das tecnologias são incontornáveis. Além de ampliarem o conhecimento de forma rápida e dinâmica, facilitam todo o trabalho de processamento mental que envolve novas aprendizagens, fixação de memórias, cruzamento de informação, destreza e maior rapidez das funções cognitivas.
Apesar dos benefícios serem inegáveis, as máquinas que utilizamos no nosso quotidiano também comportam desvantagens e são elas que nos podem prejudicar.
Preocupados com os efeitos negativos que as máquinas podem causar nos jovens, há quem acredite que o processo de aprendizagem e raciocínio pode estar comprometido, bem como a capacidade de atenção e sociabilização.
Face a este cenário, os especialistas defendem que estas ferramentas devem ser utilizadas de forma racional e regrada.
É importante que os recursos tecnológicos se adaptem ao ser humano e às suas necessidades e não o inverso. Por outras palavras, é fundamental que não seja o utilizador a adaptar-se ou tornar-se dependente desses equipamentos. 
O uso das tecnologias de informação só poderá comprometer os processos de aprendizagem se substituírem, e não complementarem, os modos de aprendizagem naturais.

(adaptação de um artigo de Carla Neto, publicado na revista Montepio Jovem n.º 22)

Anda... vem comigo!


Combate à Solidão

Foram dias cheios de uma vida ativa, repleta de histórias para contar. Famílias mais ou menos numerosas que dão agora lugar a uma solidão disfarçada entre quatro paredes. Os idosos portugueses estão cada vez mais sozinhos.
Abandonados em hospitais, lares de terceira idade ou, muitas vezes, nas suas próprias casas, deixam para trás uma vida esquecida por todos e que, com o passar do tempo, se vai tornando cada vez mais difícil.
Nos grandes centros urbanos, a solidão na velhice é uma realidade especialmente difícil de combater. Uma solidão que, como o próprio nome indica, conduz “a um isolamento da realidade, um isolamento das relações interpessoais” e até, a um isolamento dos problemas do idoso.
Apesar de viverem o mesmo tempo, os idosos portugueses têm menos dinheiro e menos anos de vida saudável, face à média da União Europeia, implicando menores condições para aproveitar a velhice com qualidade.
Assim, é dever de todos nós promover o combate à solidão, incentivando a participação dos idosos em todos os momentos da vida familiar, assim como em atividades lúdicas, recreativas e desportivas. 

(adaptação de um texto de Cláudia Marina | Revista Montepio, Primavera 2011)

Florestas

Basta pensarmos um pouco para concluirmos que a vida do Ser Humano sempre dependeu, e dependerá, da existência das árvores e da floresta.
Aliás, e porque é o elo que liga as diferentes actividades orgânicas, é impossível imaginar a Terra sem vegetação e sem zonas verdes.
A vida começou no mar e foram as plantas que iniciaram a conquista da Terra, adaptando-se e desenvolvendo-se.
As florestas aparecem intrinsecamente ligadas aos humanos. Ainda assim, o Ser Humano terá pensado, em certo momento, que elas eram um obstáculo à implantação de aldeias e cidades e ao progresso da civilização.
Sem árvores e sem vegetação não poderíamos viver. Elas dão-nos o oxigénio para respirar e absorvem o excesso de anidrido carbónico contido na atmosfera.
A mais recente avaliação efectuada pela ONU (Organização das Nações Unidas) conclui que as florestas ainda cobrem 30% da área do nosso planeta.
Temos hoje os conhecimentos necessários para saber que é preciso conservar as florestas e como consegui-lo.
O equilíbrio ainda é possível, é necessário agir!

(adaptação de um artigo de Gil Montalverne | Revista Montepio Jovem n.º 23)

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